quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Poeta da sétima arte

Só tive contato com a obra do cineasta russo Andrei Tarkovsky no ano passado. Quando isso aconteceu, ele imediatamente virou alvo da minha obsessão. Descobri que sempre foi uma referência mundial no cinema (matéria obrigatória nas universidades) e fonte inspiradora de cineastas como Lars Von Trier, outro diretor por quem sou muito apaixonada.

Ao contrário do que seria natural, li "Esculpir o Tempo" antes de assistir aos filmes, livro que também pode ser considerado uma biografia, só que menos pessoal e mais artística. Encontrei ali sua visão da arte, sua compreensão do papel do cinema (e do cineasta), sua trajetória de vida, o processo de trabalho de seus filmes, histórias sobre a rica e amorosa troca com seu público, da relação complicada com os críticos e do compromisso de fé que, na sua opinião, o artista deve assumir com a humanidade, de uma maneira divina e transcendente, como ele mesmo fez.


"O gênio não se revela na perfeição absoluta de uma obra, mas sim na absoluta fidelidade a si próprio, no compromisso com sua própria paixão".

Em seguida, assisti "O Espelho" e fiquei absolutamente transtornada, mas sem entender direito porquê, pelo menos na primeira vez. A câmera é o olhar da criança que ele foi em sua infância na Rússia, um registro tão verdadeiro que somos capazes de sentir o cheiro da cozinha da mãe e o vento gelado da tarde que bate no rosto quando se tem seis anos idade e ainda não se consegue apreender a lógica do mundo. Esta nostalgia (sentimento que inclusive dá nome a outro de seus importantes filmes) é uma marca constante em sua obra.



Fora da caixa da narrativa clássica, ele transforma estados de espíritos em imagens poéticas de imensa beleza estética, como se cada enquadramento fosse uma pintura. E, por meio desta voz memorialista, apresenta-nos os aspectos mais inexoráveis da existência humana, como o passar do tempo, a força da ancestralidade e os laços que nos prendem às origens.

De alguma forma, ele resumiu ali um pouco do que, de maneira utópica, eu gostaria de ser capaz fazer com o conteúdo da experiência humana, sem frescuras e com verdade. Posso dizer que explicou algo sobre mim mesma que, sozinha, eu jamais conseguiria entender.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O codinome da morte

"Sete", este é o nome da primeira peça da dramaturga Dione Carlos, o tal número cabalístico que, por si só, já chama a atenção, aguça a curiosidade, mas que é só o começo da viagem. Daí vem o texto. O bom fruto de sua vivência estudando a "dramaturgia do transumano" de Roberto Alvim, que sabiamente deu palco a ela no Club Noir.

Dione problematiza o sujeito. Não há personagens, mas há muitos ao mesmo tempo. O general e o médico do agora tomam o lugar da mãe e a professora da memória. São tantos e também um só, um único indivíduo que muda de cara dependendo de sua posição na órbita, da distância que está em relação ao sol, explicaria a autora.

Também não há narrativa linear, mas fragmentos de experiências humanas numa guerra. No caos artisticamente organizado que criou para si, e para todos, a autora encontra a sua voz, enquanto nós, espectadores, nos enxergamos ali, no palco, vivendo uma trajetória universal. O espetáculo conversa com cada um de nós porque conversa com toda a humanidade - a sensação de que "isso tem a ver comigo" é atualizada a cada cena, a cada fala, a cada intervenção. E nosso cérebro, coitado, tão acostumado a começos, meios e fins, fica prazerosamente clamando por satisfação, uma dor desconhecida que se mistura ao gozo.

Ah, sim. A história? Você quer saber qual é a história. Bom, não sou eu que vou contar. Responder a esta pergunta seria destruir a dramaturgia e o olhar de cada um sobre ela. É como inferir num paladar que não é meu. "Sete" é uma obra aberta num sistema fechado, redondo. Para cada pessoa, bate diferente, pega de um jeito. É peça para ir lá e se servir.

Daria pra dizer que é sobre uma mulher (Sete?) num contexto de guerra, da opressão do homem sobre o homem, dos vários lados que existem numa situação limite. Porém, esta conclusão (uma entre várias possíveis) reduziria a proposta a muito menos do que ela é. Estou falando de um texto construído a partir de metáforas que proporcionam a ampliação da experiência, uma vez que esta guerra tanto poderia ser real quanto estar dentro de nós.

O texto ganha potência na direção da atriz Juliana Galdino, que, como sempre, extraiu o melhor do elenco formado na Paralela Noir, a oficina de atuação da casa. Mais uma vez, os atores e atrizes apresentam a mesma força em sua interpretação. Diferente da maioria das peças em cartaz em São Paulo, ninguém fica perdido em cena sem saber o que dar nem o que fazer. E a luz - que no Noir é tão importante quanto texto, direção e atuação - é bonita e surpreende.

"Sete" deve voltar logo mais.  A reestreia está prevista para o dia 12 de janeiro. É bom acompanhar lá no site (www.ciaclubnoir.com.br) e não deixar de ir.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ação institucional com teatro

O espetáculo "A Colcha de Sonhos" foi uma iniciativa do Santander que tive a honra de participar como dramaturga entre 2010 e 2011. Trabalhei em dupla com a atriz Joana Pegorari na concepção do roteiro e, na produção, contei com uma equipe incrível de atores, músicos, produtores, diretor e cenógrafo, todos amigos e artistas talentosos.

O projeto tinha como objetivo dialogar com microempresários de regiões carentes do país sobre temas como sustentabilidade, ecoeficiência, autoestima, educação financeira, empreendedorismo e cooperação. A ideia era gerar reflexão sobre como atitudes responsáveis com as pessoas e com o meio ambiente podem trazer resultados positivos para os negócios e equilíbrio na vida pessoal.

Criamos a história de Tonico, um menino sonhador que conhece uma costureira muito especial, sua nova vizinha. A partir desta amizade, ele passa a ter uma nova visão de mundo e a promover a transformação da realidade de todos a seu redor, sobretudo de seu pai, um empreendedor que está com dificuldades na administração de sua mercearia.

Por ser uma peça de caráter educativo, foi preciso atenção no formato: por isso, adotamos uma linguagem clara e, ao mesmo tempo, divertida e criamos uma farsa (bem ao estilo "A Grande Família"), construída com elementos de humor, interação com o público, romance e realismo fantástico (por exemplo, a história tem um cachorro que fala).

Parte da caracterização dos personagens e do tratamento dos temas foi desenvolvida com base nas conversas que Joana e eu tivemos com microempreendedores da comunidade de Paraisópolis. Partimos das experiências deles para que a peça fosse o mais crível possível.

Foram realizadas três temporadas (uma em São Luis do Maranhão e duas em São Paulo), e o espetáculo ainda virou websérie, que está disponível a quem se interessar. Sou suspeita, mas mesmo assim posso dizer que vale muito a pena assistir e compartilhar por ser um interessante material de conscientização. Acesse o canal de vídeos do site www.santander.com.br/sustentabilidade.

Segue também o making off da montagem, que inclui as visitas dos atores aos empreendedores de São Luis.


   

E aqui algumas fotos dos bastidores: http://bit.ly/r6D4wX

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Desconhecida

Por Renata Bortoleto

Seis da tarde. Hora de ir para o hospital onde você me espera, desacordada. Um caminho que eu não conhecia até o dia que você seguiu naquela maca, seu corpo ferido. Desde então, como um viciado em busca de droga, todos os dias preciso ouvir o silêncio profundo que substituiu sua voz. Arrumo minhas coisas e sigo a nova rotina. Hoje é o décimo terceiro dia.

Subo num ônibus da periferia onde moro e me jogo num banco qualquer. Não tenho forças para olhar pra as pessoas ao meu lado, atrás de mim, na minha frente... São apenas rostos, e nenhum deles me faz diferença. Cheguei no meu limite, eu poderia matar ou morrer agora. Sinto que não estou aqui, mas também não estou em nenhum lugar. Bate o cansaço, nunca mais consegui dormir. Daria as minhas poucas moedas para receber a garantia que uma destas vidas, passageiros como eu, é mais desgraçada que a minha. Ilusão. Ao levantar, vejo que estou só. Desço.

Chego, e o pesadelo recomeça. Procuro o mesmo lugar do saguão de espera, minha superstição. Pela segunda vez no dia, estou prostrado num banco de plástico esperando o impossível acontecer. Abro as pernas, curvo as costas, coloco os cotovelos nos joelhos e aperto as mãos em punho nos ouvidos. Não termino a engenharia, vem a enfermeira e anuncia, pode entrar, senhor.

Ando sem pressa adiando o encontro, o nosso. Passo por sete quartos. O rapaz do primeiro, que nunca mais vai andar, gosta de conversar com a velha do sexto, que morre de velhice. O terceiro e o quinto estão desocupados. Quando lembro disso, falta só mais um passo. Pronto.

- Posso entrar, meu anjo?

A pergunta obviamente não é respondida, e o apelido ridículo revela uma intimidade que nunca existiu, frágeis técnicas criadas pela minha cabeça para me impedir de enlouquecer. Aproximo-me da cama que mais lembra uma mortalha. Minhas mãos acariciam seu rosto, que está sempre virado para o outro lado, como quem espera um pouco de calor. Meus dedos passeiam dos olhos à boca, gesto simples, não fosse ele responsável por detonar em mim dúvidas que me atormentam há quase duas semanas.

Seu peito sobe e desce com dificuldade, você guerreia para ficar ou está prestes a ir, não sei. Vejo um fiapo de respiração, única trama que nos prende, os mesmos fios que se cruzaram naquela noite que nos conhecemos e você, intensa, jorrava vida por todos os poros.

Aceita um drink, foi o convite corajoso que eu, sendo quem sou, jamais faria a alguém. Mas ele veio de você. E justo para mim, que não tenho nada a oferecer, sou só um feio moleque pobre. Minhas pernas tremiam, e eu mal conseguia articular as palavras. Sim, aceito, respondi, já pensando em tudo o que poderia acontecer. Parecia que aquilo não era comigo.

As mãos brancas, o esmalte escuro, os muitos anéis que enfeitavam seus dedos me entregaram a bebida e o começo da nossa história, esta. Você se aproximou, senti o ar quente da sua boca misturado ao cheiro doce que vinha do pescoço. Eu ali, acuado e excitado como uma alegre presa. Em três horas e trinta e sete minutos, mais sete cervejas e a conta, seu corpo já se contorcia de prazer. Este que, coberto e quase inerte, segue rigorosamente procedimentos médicos.

- Com licença, senhor. Pode sair um instante? Preciso trocar os curativos.

A imagem da mulher linda e exótica, de pele branca e cabelos pretos, durou exatamente da bebida ao gozo. Depois que trepamos, adormeci e tive um sono cansado: sonhei que você pisava no meu estômago e na minha cara, dançando e rindo como um bruxa. Acordei de sopetão e você estava em cima de mim, mas sentada, nua e como uma estátua, naquela mesma posição de quando transamos: a impressão que tive é que você não saiu dali durante aquele tempo. Sem explicação, também não sentia direito seu peso em mim. O quarto todo um breu, não enxergava nem o contorno do seu corpo. Tudo bem, você me perguntou, com um tom estranho na voz. Sim, respondi, foi bom demais, só estou muito cansado. Fazia calor, uma poça de suor inundava minhas costas. Coloquei a mão na sua cintura e senti que também estava ensopada. Pensei no banho mas, àquela altura, o cansaço era maior. Voltei a dormir. Depois de algumas horas, a luz do dia foi chegando junto com a da visão e a da consciência, elas iluminavam o ambiente, projetando este nosso destino. Procurei você e achei, seu corpo todo aberto por uma navalha. Barriga, pernas, peitos, pescoço, braços, costas, boceta e também o pulso, um só estilhaço. Você, que ainda tinha nas mãos aquela lâmina cujo aço brilhava à luz do sol que nascia, dormia um sono profundo em cima do próprio sangue. Antes do meu desespero, ainda tive tempo de pensar, ela desistiu de cortar o próprio rosto, este mesmo que agora descansa, virado para o outro lado.

domingo, 24 de julho de 2011

Qual é a busca?

Tem outro clichê do teatro que adoro. Adoro porque é mais do que um clichê, é uma verdade. Quando a gente acaba de ver uma boa peça, fica sempre uma pergunta que perturba e pode até nos perseguir a vida toda. Se ela der uma resposta, desconfie: os livros de auto-ajuda já tentam dar conta disso.

Em "45 minutos", Caco Ciocler, que interpreta um ator decadente, questiona o próprio ofício, como se perguntasse a si mesmo: "o que estou fazendo aqui?", "o que fiz da minha vida?", "para que serve meu trabalho?", "o que as pessoas esperam de mim?". Leia a sinopse aqui.

A grande sacada é esta crise compartilhada com o público. Compartilhada não, jorrada na cara dele, e os sentimentos são muitos. A gente vai do profundo tédio até uma angústia absurda, também pela exposição do ator.

Sério, a "vergonha alheia" está presente o tempo todo. Pelo personagem que se substima e pelos pedidos agressivos e reações inflamadas da platéia, especialmente quando ele pergunta o que deve fazer para entretê-la.

Tem de tudo. Quando eu fui, um cara pediu para que ele fizesse qualquer "ceninha" de um ator global como aquele tal de "Caco Cicocler". Sim, o idiota teve as manhas de errar o nome do ator. São nesses momentos que você entende o brilho do texto e da direção, simplesmente porque já se pergunta por que mesmo esse cara se deu ao trabalho de sair de casa, qual é a busca dele.

Pouco depois, Caco dá um monólogo de Hamlet lindamente e responde em seguida: "esse foi Shakespeare interpretado por uma ator da Globo". Pena que não consegui colocar para fora o que veio na minha mente para meu colega do público, minha educação não permitiu.

Um outro pediu "leia aí alguma coisa do Paulo Coelho", no que uma moça gritou um "não" que saiu do fundo da alma. Foi nervoso, foi interessante, coloca em cheque o que está dentro da gente, nossa estupidez, valores, certezas.

É um dedo na ferida, tanto na hora quanto nas críticas. Li algumas, positivas e negativas. Acho isso muito rico. É isso o que estes artistas esperam, é isso o que eles se propuseram a fazer. No final, é este o papel da arte (pelo menos na minha opinião): provocar, desarmonizar, acessar forças que nem nós conseguimos entender racionalmente.

Mas tem quem não perceba o jogo e prefere vociferar. Faz o mesmo que o personagem: coloca para fora seu conteúdo interno. A indiferença seria sair da sala, atitude estimulada por ele nos dez primeiros minutos. Quando fui, não aconteceu. Pelo que me parece, poucos saem. Por que será?

Fico feliz quando uma obra desorganiza. Não ligo a mínima quando alguém não gosta de alguma boa montagem e, mais feliz ainda, quando reage, significa que algo importante foi acessado. É o que vale. O resto é show business.

Além das perguntas que pertubaram ("o que a gente busca quando está na frente de uma obra?", "o que a gente busca nas nossas próprias vidas?"), vem a certeza de que aquele artista está preso ao teatro de uma forma sagrada, maior que ele. É para isso não existe remédio nem volta.

Recomendo não porque foi o melhor espetáculo da vida, mas porque reflexões como estas são muito bem-vindas!


Elenco: Caco Ciocler
Direção: Roberto Alvim
Texto: Marcelo Pedreira

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Platéia em cena

Eu nunca conheci um bom ator que não tivesse paixão pelos palcos. Não só ator, mas qualquer profissional do teatro. É uma força maior, um vício, uma espécie de loucura. Tem até expressão para isso, que é ser picado pelo "bichinho".

O cinema e da televisão podem ser muito excitantes, mas a viagem maior está lá, no teatro, na arena perfeita do sagrado e do profano. Do prazer e do sacrifício. Onde se fala da dor para falar do amor. Onde o expurgo nunca é gratuito: ele jorra, agride, mas sempre em função de. Onde o desespero é bem-vindo, ganha forma e cor.

Mas por que só o teatro é assim?  É uma resposta cheia de várias outras. Tem nuances e um terreno vasto de discussão. Mas uma delas é simples e certa: a relação com a platéia.

É ela que, em boa parte, "decide" o que vai acontecer em cena. Não é à toa que os atores comentam entre si no camarim depois das apresentações: "hoje o público estava difícil", "hoje o público estava gostoso", e por aí vai.

Só nessa relação que o espetáculo é construído, porque são humanos que se reúnem para falar da sua própria condição. E é só na presença que esta troca se concretiza. É só nesse encontro que forças do inconsciente coletivo, da história da humanidade e da nossa ancestralidade são evocadas com frescor, sem nenhuma tela no meio.

Mas tem dia que é cruel. Ou porque o crítico está lá (então a tensão aumenta) ou aquele "mala" cujo objetivo é encher o saco e ficar olhando no relógio (então a raiva aumenta). A persona do ator que está ali quer morrer de catapora preta, mas o artista dele respira fundo e diz "vamos lá, esse é meu trabalho, é para isso que estou aqui".

Não estou aqui tentando defender a classe nem romantizar a experiência. Só estou descrevendo momentos em que a exposição é tão grande que a pessoa que está ali no palco (um trabalhador como outro qualquer) tem que colocar a alma na última gaveta da cômoda. Tirar a roupa em cena é fichinha. Quero ver dar um monólogo de Shakespeare para um cara que está mais preocupado com sua pipoca.

O contrário também é verdadeiro. Quando a platéia está presente e respeita, a coisa parece que rola, é uma questão de energia. Se o ator não vai bem, a culpa é dele mesmo. Se o público, além de respeitar, é alegre e receptivo, aí vira festa. No geral o elenco fica mais leve para fazer bem feito.

Tudo bem que não é uma regra geral. São conclusões puramente empíricas e até grosseiras. Mas eu queria compartilhar para, logo mais, falar o que se passou pela minha cabeça e pelo meu coração quando eu vi a peça "45 minutos" há duas semanas atrás. Juro que conto em breve.

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Sim. Eu voltei a atualizar o blog. ;-)

Até!